Raphael Lafetá*
A relevância econômica do setor de Construção Civil para o país é incontestável. De acordo com o último Censo do Mercado Imobiliário, realizado pela Brain Consultoria, o Brasil bateu o recorde de lançamentos imobiliários no Brasil, com quase 450 mil unidades em 2025. Além disso, segundo o cálculo anual do Produto Interno Bruto (PIB) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o crescimento do PIB em 2024 foi de 3,4% em relação a 2023, a maior taxa anual desde 2021. E na Indústria, a atividade de Construção foi o grande destaque, com 4,3% de crescimento. Isso mostra que os caminhos tomados por nosso setor têm efeitos macroeconômicos.
Em 2026, a tecnologia continuará sendo um fator decisivo para um crescimento sustentável do setor. A Deloitte, uma das maiores empresas globais de consultoria e auditoria financeira e digital, aponta que a disseminação da inteligência artificial generativa tende a gerar ganhos relevantes em design, planejamento, controle de custos, inspeção de obras, segurança, conformidade e qualidade.
A McKinsey & Company relatou um caso em que o uso de engenharia automatizada e IA para otimizar cronogramas de construção foi responsável por identificar a oportunidade de diminuir o tempo ocioso da mão de obra em 33%, reduzir as necessidades de mão de obra em 8,5% e economizar três semanas no cronograma, mostrando um impacto direto sobre prazos e investimentos.
Exemplos como esse estão entre as melhores práticas internacionais e demonstram que as novas tecnologias são capazes de tornar a construção mais previsível e eficiente. Com modelos digitais, dados integrados e ferramentas de análise avançada, é possível reduzir retrabalhos, minimizar desperdícios, antecipar riscos e tomar decisões com maior precisão.
No Brasil, entretanto, a incorporação dessas ferramentas ainda ocorre de forma desigual. Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que, em março de 2024, apenas 20,6% das empresas utilizavam o Building Information Modeling (BIM), embora esse percentual represente avanço expressivo em relação aos 9,2% registrados em 2018. O BIM, quando plenamente implementado, integra projeto, orçamento, planejamento, execução e até a fase de operação da edificação, reduzindo falhas de comunicação, retrabalho e geração de resíduos, além de elevar significativamente a produtividade.
Ao mesmo tempo, a adoção do BIM exige investimentos elevados em softwares, infraestrutura e, sobretudo, na capacitação das equipes. Projetistas, gestores, engenheiros e trabalhadores do canteiro precisam dominar novas linguagens, processos e ferramentas. Para muitas empresas, especialmente de pequeno e médio porte, esse esforço financeiro e organizacional ainda representa um obstáculo relevante.
Esse desafio se soma a outro problema estrutural: a escassez de mão de obra qualificada. Dados da Sondagem da Construção, da FGV, mostram que, em fevereiro deste ano, 41,6% dos empresários apontaram a falta de trabalhadores qualificados como fator limitativo para seus negócios, o maior percentual para esse mês desde 2011. Desde maio de 2024, esse tem sido o principal entrave citado pelo setor, superando inclusive a insuficiência de demanda.
Em outras palavras, convivemos com um paradoxo: há tecnologias capazes de elevar significativamente a produtividade, mas faltam profissionais preparados para operá-las e integrá-las aos processos produtivos. Sem enfrentar esse gargalo, a transformação digital tende a ser parcial, lenta e concentrada em poucos grupos empresariais.
A própria pesquisa da FGV indica o caminho que o setor vem buscando. A principal resposta das empresas tem sido o investimento em treinamento e qualificação, inclusive voltados ao uso de novas tecnologias. Em seguida, aparecem o deslocamento de trabalhadores entre obras e regiões e, também, o aumento da remuneração como forma de atrair e reter talentos. Esses dados revelam que o capital humano é hoje o principal ativo estratégico da construção civil. Iniciativas como o Sinduscon-MG Lab, parceria do Sindicato da Indústria da Construção Civil de Minas Gerais e o Órbi ICT, chegam com o objetivo de cumprir essa lacuna. São treinamentos práticos e estratégicos voltados à qualificação de lideranças e profissionais do setor no uso de tecnologias aplicadas, com foco em aumentar a competitividade das empresas e gerar resultados concretos na gestão e na operação.
Investir em inovação é, acima de tudo, investir em gente. Somente com profissionais capacitados será possível transformar o atual ciclo de crescimento em desenvolvimento duradouro. A construção civil tem diante de si a oportunidade de liderar esse processo. Cabe a todos nós, empresários, entidades e gestores públicos, construir juntos esse futuro.
*Raphael Lafetá – Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Estado de Minas Gerais (Sinduscon-MG)