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[Artigo]: Hierarquia de prioridades na gestão de Resíduos Sólidos

Juliana Santos*

Há quase duas décadas atuando na área de sustentabilidade, aprendi que alguns dos maiores desafios ambientais não estão na falta de conhecimento, mas na dificuldade de transformar conhecimento em escolhas.

Os resíduos sólidos representam um desses desafios, para o qual cabe destacar a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei Federal nº 12.305/2010, que estabeleceu uma mudança essencial: a hierarquia de prioridades de gestão, que preconiza que antes de pensar em destinar, precisamos pensar em não gerar. Quando isso não for possível, devemos buscar a redução, a reutilização, a reciclagem e o tratamento. A disposição final ambientalmente adequada deve ser reservada aos rejeitos.

Mais do que uma obrigação legal, essa hierarquia traduz uma escolha: usar melhor os recursos e assumir responsabilidade pelas consequências das nossas decisões, enquanto indivíduos e sociedade.

Na construção civil, pensar em resíduos apenas no momento da destinação é agir tarde demais. A responsabilidade começa na concepção do produto, no projeto, na compatibilização, na escolha dos materiais, no planejamento e permeia a cadeia na gestão das compras, na logística do canteiro, no armazenamento adequado, na redução das perdas e na definição de processos construtivos mais eficientes. A reflexão a ser feita, portanto, não é apenas “para onde vamos levar esse resíduo?”, mas, antes disso: “o que podemos fazer para não gerar esse resíduo?”

Neste momento a sustentabilidade deixa de ser discurso e passa a ser gestão na prática. É nesse ponto que a PNRS se encontra com uma das mensagens mais conhecidas da obra O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” A frase aparece no diálogo entre o Pequeno Príncipe e a Raposa e traduz uma ideia simples e poderosa: quando estabelecemos um vínculo, passamos a ter responsabilidade sobre aquilo que dele resulta. Podemos, assim, fazer uma analogia com os resíduos que geramos. Tu te tornas eternamente responsável pelo resíduo que geras.

Quando uma empresa decide utilizar determinado material, consumir determinado recurso ou adotar determinado processo, ela também assume a responsabilidade pelos resíduos que serão gerados por essas escolhas. Não basta transferir o problema para outra etapa da cadeia. A responsabilidade não termina quando colocamos o lixo pra fora em casa, ou quando o caminhão leva a caçamba embora do canteiro de obra, da indústria ou da empresa. Ela acompanha o resíduo.

A PNRS nos oferece uma direção clara: não gerar, reduzir, reutilizar, reciclar, tratar e, somente quando não houver outra alternativa, dispor adequadamente os rejeitos. Para o setor da construção, seguir essa hierarquia significa mais do que cumprir a legislação. Significa reduzir desperdícios, aumentar eficiência, preservar recursos naturais e incorporar a sustentabilidade à própria estratégia do negócio.

Nessa jornada, acredito que o grande desafio não seja apenas gerenciar melhor os resíduos que produzimos, mas repensar as escolhas que os produzem. Isso sim é ser sustentável por inteiro. Porque o resíduo não começa na caçamba. Começa na escolha. E toda escolha traz consigo uma responsabilidade.

*Juliana Santos é engenheira ambiental e sanitarista, especialista em Engenheira de Segurança do Trabalho.