Ao longo dos meus 20 anos de vivência em canteiros de obras, especialmente voltados para questões ambientais, torna-se evidente que esse espaço já não pode ser visto apenas como um local de produção. O canteiro é um ambiente dinâmico, onde trabalhadores, muitas vezes vindos de longas distâncias, passam grande parte do seu tempo sob diferentes condições climáticas, convivendo em equipe e interagindo com o entorno. Nesse cenário, a conscientização socioambiental deixou de ser mera exigência regulatória: tornou-se elemento estratégico para a qualidade da construção, o bem-estar dos operários e a preservação ambiental.
Mais do que cuidar da obra, é essencial reconhecer o trabalhador como parte fundamental do processo. Programas de capacitação, segurança e valorização fortalecem a autoestima e a motivação, criando um ciclo virtuoso: profissionais conscientes e engajados produzem com maior qualidade e eficiência, independentemente do porte da empresa. Esse investimento humano contribui ainda para mitigar a escassez de mão de obra qualificada, tornando o setor mais atrativo e sustentável.
A atenção não deve se restringir às condições físicas e ambientais do canteiro. Questões familiares, financeiras e de saúde mental impactam diretamente a produtividade e a segurança. Por isso, iniciativas de acompanhamento psicológico e apoio social são tão relevantes quanto as medidas de proteção ambiental e ocupacional já consolidadas. O cuidado integral com o trabalhador fortalece a cultura organizacional e promove ambientes mais dignos e saudáveis.
Um canteiro que valoriza simultaneamente a preservação ambiental e o bem-estar humano reduz desperdícios, acidentes e reclamações do entorno, além de evitar notificações de órgãos fiscalizadores. Esses fatores geram economia direta para a obra e para a construtora, consolidando a percepção de que investir em pessoas e em sustentabilidade é investir em competitividade, reputação e em uma sociedade mais justa e equilibrada.
Nesse contexto, destaca-se a atuação do Sinduscon-MG, que por meio da Vice-Presidência de Obras Industriais e Corporativas, em parceria com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e o Serviço Social da Indústria (SESI), lançou durante o 1º Fórum de Sustentabilidade (realizado em 11 de junho) a cartilha “Integridade em Construção: Ética, Compliance e ESG”. O documento aborda conceitos de integridade, fatores ambientais, sociais e de governança, além de enfatizar a necessidade de incorporar práticas de eficiência energética, gestão hídrica e descarbonização. Tais diretrizes são fundamentais para orientar a tomada de decisões e consolidar a transição do setor em prol da sustentabilidade.
Como costumo destacar em palestras, variáveis ambientais e sociais não devem ser tratadas como etapas posteriores da obra. Elas precisam estar presentes desde a concepção do projeto. Somente assim será possível construir um setor ainda mais resiliente, competitivo e comprometido com o futuro do planeta – afinal, só temos um.
Fernando Fogli – Diretor de Meio Ambiente do Sinduscon-MG, mestre em Engenharia Ambiental, geógrafo e analista ambiental