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Redução da jornada pode elevar em até 15% o custo da mão de obra no setor da construção, com impacto potencial adicional de R$ 20 bilhões ao ano

Para compensar, setor teria três cenários: reduzir atividade, contratar 288 mil novos profissionais ou custear R$ 20,3 bilhões em horas extras

A redução da jornada de trabalho de 44 para 40 horas semanais pode elevar em até 15% os custos com mão de obra na indústria da construção, chegando a R$ 155,6 bilhões por ano, ou exigir a contratação de 288 mil novos trabalhadores, com custo adicional de R$ 13,5 bilhões anuais. É o que mostra estudo inédito da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), que analisa os impactos da proposta em discussão no Congresso Nacional.

Elaborado pela economista-chefe da CBIC, Ieda Vasconcelos, com base na Relação Anual de Informações Sociais (RAIS 2024), o estudo demonstra que a mudança encareceria em 10% o custo da hora trabalhada, elevando a remuneração média de R$ 15,01/hora para R$ 16,51/hora. O efeito seria mais severo nas micro e pequenas empresas, que respondem por 98,7% dos mais de 300 mil estabelecimentos do setor, e nas construções populares, onde a mão de obra representa quase 60% do custo — proporção que varia entre 41% e 54% nos demais padrões.

“O estudo corrobora nossa preocupação com uma discussão açodada sobre mudanças na jornada de trabalho no Brasil”, aponta Renato Correia, presidente da CBIC. “Temos apontado a necessidade de avaliar esse tema de forma técnica, considerando dados confiáveis e questões que farão diferença, como baixa a produtividade do trabalhador falta de mão de obra. O setor da construção já enfrenta dificuldade de contratação em diversas regiões do país”.

O setor da construção emprega atualmente cerca de 3 milhões de trabalhadores formais e sua cadeia produtiva envolve aproximadamente 13 milhões de pessoas, entre fornecedores de materiais, serviços, máquinas e equipamentos.

Redução da jornada impõe três alternativas

O estudo divulgado pela CBIC aponta três cenários para compensar a perda de aproximadamente 600 mil horas de trabalho anuais. |O primeiro é reduzir o ritmo de atividade do setor da construção, sem qualquer reposição das horas perdidas. Nesse cenário, o impacto se espalharia por toda a cadeia produtiva, atrasaria obras em andamento, reduziria a oferta de imóveis e agravaria o déficit habitacional.

O segundo alternativa é a contratação de novos trabalhadores. Para repor as horas perdidas, o setor precisaria admitir 288 mil novos celetistas, sendo 111 mil só na Construção de Edifícios, 98 mil em Serviços Especializados e 79 mil em Obras de Infraestrutura. O custo adicional seria de R$ 9,9 bilhões por ano, valor que sobe para R$ 13,5 bilhões quando incluídos os encargos previdenciários e trabalhistas básicos. Com isso, o gasto total do setor com mão de obra passaria dos atuais R$ 135,3 bilhões para   R$ 148,9 bilhões anuais – uma alta de 10%. Essa saída esbarra em uma realidade já conhecida pelo setor: a escassez de mão de obra qualificada e não qualificada em um mercado de trabalho que finalizou 2025 com o seu menor índice de desemprego (5,1%) desde 2012, segundo o IBGE.

O terceiro é a realização de horas extras. Considerando o adicional legal de 50%, o custo extra chegaria a R$ 14,8 bilhões por ano, ou R$ 20,3 bilhões com encargos trabalhistas básicos. O custo da mão de obra no setor subiria, então, para R$ 155,6 bilhões – um acréscimo de 15% sobre o patamar atual.

Acima da inflação

O setor da construção já opera com custos acima da inflação. O Índice Nacional de Custos da Construção (INCC), da FGV, acumulou alta de 5,81% nos 12 meses encerrados em janeiro de 2026, com a mão de obra subindo 8,93% — enquanto o IPCA, indicador oficial da inflação no País, aumentou 4,44% no mesmo período. Há um agravante adicional: o nível de atividade do setor ainda está 9,43% abaixo do pico de 2014, mesmo após a recuperação pós-pandemia.

Habitação popular será a mais afetada

Os efeitos tendem a ser maiores na habitação popular, segmento em que a mão de obra representa quase 60% do custo das obras. Segundo Ieda Vasconcelos, o aumento nos custos pode pressionar o preço final dos imóveis e dificultar o acesso à moradia, especialmente para famílias de baixa renda e da classe média. Além do impacto direto nas obras, o estudo ressalta que a construção possui forte efeito multiplicador na economia. “É fundamental que essa discussão ocorra com base em dados e levando em conta seus impactos econômicos e sociais”, conclui a economista.

Fonte: CBIC