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[Artigo] > ESG na Construção Civil: Oportunidades, Resultados e Desafios

Por Daniela C. Pedroza*

A Construção Civil tem um papel essencial no desenvolvimento urbano e também na infraestrutura de um país, o que a torna também responsável por aproximadamente 37% das emissões globais de CO2, de acordo com o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O Relatório de Status Global para Edificações e Construção (Buildings-GSR), publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e pela Aliança Global para Edificações e Construção (GlobalABC), traz um panorama anual do progresso do setor de edificações e construção em escala global. O Buildings-GSR analisa o status das políticas, finanças, tecnologias e soluções para monitorar se o setor está alinhado com as metas do Acordo de Paris. Ele também apresenta às partes interessadas evidências para persuadir os formuladores de políticas e a comunidade geral de edifícios e construção a agir.

De acordo com esta edição, o setor de edificações e construção, contribui significativamente para a mudança climática global, sendo responsável por cerca de 21% das emissões globais de gases de efeito estufa. Em 2022, os edifícios foram responsáveis por 34% da demanda global de energia e 37% das emissões de dióxido de carbono (CO2) relacionadas a energia e processos.

O relatório traz que o estudo do ambiente global de políticas voltadas à sustentabilidade das edificações é diverso e está em constante evolução. Embora alguns países ainda não disponham de estratégias abrangentes para redução de emissões, um número crescente vem implementando regulamentações com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C.

A União Europeia, por exemplo, revisou a Diretiva de Desempenho Energético de Edifícios (Energy Performance of Buildings Directive – EPBD), estabelecendo a obrigatoriedade de padrões de emissão zero para novas edificações até 2030, além de prever a eliminação gradual de sistemas de aquecimento baseados em combustíveis fósseis até 2040.

No âmbito do Acordo de Paris, espera-se que os governos ampliem seus compromissos a cada cinco anos por meio de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). Até dezembro de 2023, 194 países, além da União Europeia, haviam submetido suas NDCs, com 48 atualizações desde 2022. Entretanto, apenas 11 dessas atualizações ampliaram ações relacionadas ao setor de edificações. Como exemplo, os Emirados Árabes Unidos estabeleceram a meta de reduzir em 56% as emissões provenientes de edificações até 2030, por meio da atualização de códigos e da ampliação do uso de energias renováveis.

Apesar desses avanços, os países do G20 ainda apresentam cobertura limitada do setor de edificações em suas NDCs e o progresso global permanece aquém do necessário frente às metas climáticas estabelecidas.

Isso mostra que a incorporação de critérios ESG (Environmental, Social and Governance) na Construção Civil precisa evoluir de uma abordagem reputacional para um modelo estruturante de gestão e geração de valor.Para isso, se faz necessário analisar as oportunidades, os resultados observáveis e os desafios do setor, à luz de frameworks reconhecidos internacionalmente, como Global Reporting Initiative (GRI), Sustainability Accounting Standards Board (SASB), Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD) e International Sustainability Standards Board (ISSB – IFRS S1 e S2), além de normas técnicas como a ISO 9001, ISO 14001, ISO 45001, ISO 37301 e ISO 31000 e diretrizes nacionais como a Associação Brasileira de Normas Técnicas PR 2030. Esta última, ainda que seja uma Prática Recomendada, nos traz direcionamentos importantes para a construção de uma agenda ESG perene e sustentável.   

Oportunidades ESG na Construção Civil

A aplicação de sistemas de gestão ambiental conforme a ISO 14001 permite a redução sistemática de impactos ambientais, o que inclui otimização do consumo de água e energia, Gestão de Resíduos da Construção Civil (RCC), com aumento de índices de reutilização e reciclagem e a consequente redução de perdas operacionais.

Adicionalmente, a industrialização da construção e o uso de metodologias como BIM (Building Information Modeling) contribuem para maior previsibilidade e eficiência.

A crescente integração entre ESG e mercado financeiro impulsiona a emissão de títulos verdes (green bonds), financiamentos atrelados a metas ESG (sustainability-linked loans) e adoção de taxonomias verdes.

Frameworks como TCFD e IFRS S2 (clima) vêm sendo incorporados por instituições financeiras na análise de risco e concessão de crédito, impactando diretamente o setor.

Empreendimento com certificações ambientais (LEED, AQUA-HQE, EDGE) apresentam maior valorização imobiliária, uma redução de custos operacionais no ciclo de vida e uma maior atratividade para investidores e usuários. A agenda ESG impulsiona o uso de materiais de menor pegada de carbono, soluções baseadas na natureza (Nature-Based Solutions), construção modular e offsite e digitalização e rastreabilidade da cadeia produtiva.

Resultados ESG: Evidências e Indicadores

A mensuração de resultados ESG no setor pode ser estruturada com base em indicadores GRI (Global Reporting Initiative) e SASB (Sustainability Accounting Standards Board).

O padrão SASB vem ganhando destaque por oferecer uma abordagem direta, comparável e financeiramente relevante para o relato de sustentabilidade. Em um cenário global cada vez mais exigente em relação à transparência e à responsabilidade das empresas, os relatórios de sustentabilidade deixaram de ser um diferencial e passaram a ser uma necessidade estratégica. Investidores, reguladores, consumidores e até colaboradores estão atentos à forma como as organizações lidam com seus impactos ambientais, sociais e de governança (ESG).

Esse padrão, em conjunto com o GRI, se tornou um dos principais padrões globais para integrar sustentabilidade à performance financeira das empresas.

A título de exemplos, temos:

Dimensão Ambiental

  • Redução de emissões de GEE (escopos 1, 2 e 3);
  • Diminuição do consumo hídrico por metro quadrado construído;
  • Taxa de desvio de resíduos de aterros.

Dimensão Social

  • Taxa de acidentes (alinhada à ISO 45001 – Sistema de Gestão da Saúde e Segurança no Trabalho);
  • Programas de diversidade e inclusão;
  • Engajamento com comunidades locais, a famosa licença social.

Dimensão de Governança

  • Estruturação de programas de compliance (ISO 37301);
  • Gestão de riscos corporativos (ISO 31000 e COSO ERM);
  • Transparência e reporte (GRI e IFRS S1).

Empresas que integram esses indicadores à gestão estratégica demonstram maior resiliência e capacidade de adaptação a cenários complexos, além de permearem uma segurança em sua reputação no mercado.

Desafios Estruturais do Setor

A multiplicidade de fornecedores e subcontratados dificulta a padronização de práticas ESG, o monitoramento de conformidade e a rastreabilidade de impactos.

Do ponto de vista da maturidade organizacional e cultural, ainda há predominância de abordagens reativas, com ESG tratado como tema de comunicação, requisito contratual ou obrigação regulatória.

A transição para um modelo estratégico requer letramento no tema, mudança cultural e capacitação técnica.

A ausência de métricas consolidadas e sistemas integrados limita a comparabilidade entre projetos, a consistência de relatórios e a tomada de decisão baseada em dados.

Embora o ESG, muitas vezes, gere valor no longo prazo, é um ativo do negócio. Os desafios incluem investimentos iniciais em tecnologia e capacitação, dificuldade de mensuração de retorno imediato e pressão por custos em ambientes competitivos.

A evolução de normas, como IFRS S1 e S2 (reportes de sustentabilidade), Taxonomias verdes e requisitos de disclosure climático (TCFD), exige maior robustez na governança e nos sistemas de informação.

Governança como pilar estruturante

A efetividade do ESG na construção civil depende da integração com a governança corporativa. A governança atua como elemento de conexão entre estratégia, operação e reporte.

Os elementos críticos, pode incluir:  

  • Definição de papéis e responsabilidades;
  • Integração com gestão de riscos (COSO ERM e ISO 31000);
  • Engajamento da alta liderança e do Conselho de Administração;
  • Monitoramento contínuo e auditoria interna.

O ESG na Construção civil deixou de ser um diferencial competitivo para se consolidar como um imperativo estratégico. Empresas que estruturam sua atuação com base em frameworks reconhecidos, normas técnicas e governança robusta não apenas mitigam riscos, mas também ampliam sua capacidade de geração de valor no longo prazo.

A transformação do setor passa, necessariamente, pela integração entre sustentabilidade, inovação e governança, pilares que, quando alinhados, redefinem o papel da Construção Civil no desenvolvimento econômico e social no país.   

*Daniela Pedroza é conselheira consultiva ESG, diretora de Sustentabilidade do Sinduscon-MG, Founder e CEO da DP Consulting. Site: www.danielapedroza.com.br